Saltar para o conteúdo
Livros · Bibliotecas · PatrimónioUm lugar para ler com tempo ↗

Cadernos de leitura e cultura impressa

Fólio Aberto

Revista de leitura, bibliotecas e património impresso

Património impresso

Livros que passam de geração em geração

Há livros que atravessam gerações dentro da família: mudam de mãos, de estante e de século. O que vale neles para além do texto, como os tratar para que durem — e o registo que devem levar consigo.

Redação do Fólio Aberto
A Biblioteca Joanina, em Coimbra: livros que atravessam gerações.
A Biblioteca Joanina, em Coimbra: livros que atravessam gerações. Fotografia de Alvesgaspar / Wikimedia Commons

Há livros que não se compram nem se vendem: entram na família com uma partilha, uma mudança de casa, uma oferta antiga, e ficam. O guia de preservação da Biblioteca do Congresso (EUA), escrito para pequenas coleções domésticas, parte exatamente daí: muita gente guarda livros pelo valor que têm como herança familiar, para além do valor comercial. O que esses exemplares guardam não é só o texto impresso — é uma segunda história, escrita a lápis e a tinta nas guardas. Segue-se o cuidado que essa memória pede, segundo o guia público de preservação de livros da Biblioteca do Congresso, e o registo que deve acompanhar a próxima mudança de mãos.

O que transforma um livro num livro de família?

Raramente é a edição. O que prende um livro à família são as marcas do uso: o nome na guarda escrito por uma avó, a dedicatória na página de rosto, a data e o lugar da compra, um ex-líbris manuscrito, o marcador esquecido entre duas páginas. Forma-se assim um pequeno arquivo doméstico: quem o teve, quando e por que o ofereceu. Daí o primeiro princípio, que é quase um aviso: não «limpar» um exemplar herdado. Apagar inscrições, recortar folhas manchadas ou trocar a capa gasta apaga o documento que torna o livro insubstituível — sem marcas, é apenas mais um exemplar da mesma edição; com a caligrafia de três gerações, é um objeto único.

O exemplar fica na família, o texto atravessa o país

Convém distinguir duas viagens. O exemplar — este volume, esta capa — passa de mão em mão na família e depende dos cuidados que recebe. O texto viaja por outros meios: reedições, cópias, digitalizações. As Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, mostram a cadeia inteira: saíram primeiro em fragmentos na Revista; perante a «popularidade extraordinária», os editores reuniram-nas em livro, impresso em Lisboa em 1846, volume VIII das obras do autor — e o próprio Garrett dirigiu, corrigiu, ampliou e anotou essa segunda publicação. Século e meio depois, a Biblioteca Nacional de Portugal cedeu as imagens de um exemplar e, em 2008, a equipa de revisão distribuída do Project Gutenberg transformou-as num livro eletrónico de acesso livre. O texto não parou de mudar de suporte; os exemplares antigos pedem dos herdeiros uma coisa só: que ninguém os estrague por descuido.

Como receber livros herdados sem lhes fazer mal?

Antes de folhear, três gestos. As mãos: lavadas e bem secas, sem creme — a forma mais segura de tocar em papel, e a Biblioteca do Congresso desaconselha mesmo as luvas, que reduzem o tato e se prendem em cantos rasgados. A saída da estante: empurram-se os vizinhos para dentro e segura-se o livro pelo meio da lombada, nunca puxando pela cabeça. A abertura: um livro antigo não se força a ficar aberto por completo; apoiam-se as capas para diminuir o ângulo e aliviar a lombada.

Se um exemplar cheirar a mofo ou mostrar manchas ativas, o senso comum manda separá-lo: acima de 60% de humidade, o bolor desenvolve-se. Para limpeza e arrumação correntes, o guia irmão Preservar livros em casa tem o passo a passo.

Que lugar da casa conserva melhor um livro antigo?

A fonte insiste: as medidas de preservação mais eficazes e económicas são preventivas — arrumação, ambiente e manuseamento. Em números: ambiente fresco e seco, humidade relativa estável, idealmente até 55%; acima de 60% cresce o risco de deformações e bolor, e abaixo de cerca de 30% o papel contrai-se e torce. Daí as regras: nada de sótãos, caves ou garagens, onde temperatura e humidade oscilam e há mais risco de infiltrações; longe de radiadores e condutas de ar; ao abrigo da luz direta — o guia mostra uma capa roxa desbotada até ao amarelo.

Na estante, os livros ficam na vertical, agrupados por tamanho, com apoios contra a queda; os grandes demais deitam-se na horizontal, e nenhum livro se guarda com a lombada para cima — a gravidade acaba por descolar o miolo da capa. Os frágeis ou em pedaços viajam melhor em caixa; nos materiais de acondicionamento, valem as indicações «sem ácido» e «sem lenhina» — «arquivo» não tem definição legal e nada garante por si só.

Capas de pele: o pó que não se apaga

Aviso específico para heranças com encadernações antigas: muitos livros forrados a pele dos séculos XIX e início do XX sofrem de «podridão vermelha» — decomposição pulverulenta da pele, sobretudo nas dobras da lombada, causada pelo método de fabrico da época. Não é reversível; pode, em certos casos, ser estabilizada. Se a lombada deixa um pó avermelhado nos dedos: não esfregar, não lhe deitar produtos, mantê-lo separado ou em caixa. Para perceber quando um exemplar precisa de mãos experientes, ver Quando pedir ajuda a um conservador-restaurador.

O registo que ainda falta ao livro

Aqui o conselho é editorial — a fonte de conservação não o prescreve, mas a prática doméstica recomenda-o: antes de o exemplar mudar outra vez de mãos, escrever o que se sabe dele. Não no livro — numa folha à parte, num caderno de família ou num ficheiro da casa:

  • quem foi o primeiro dono conhecido e como entrou na família;
  • as inscrições existentes — nome na guarda, dedicatória, datas — de preferência fotografadas, não transcritas de cor;
  • o estado material: reparações antigas, capa substituída, manchas que já lá estavam;
  • e a história que se conta sobre ele, mesmo que não seja possível confirmá-la.

É esta nota que permite à geração seguinte distinguir memória de suposição.

O gesto para hoje é pequeno: escolher um só exemplar — aquele cujo desaparecimento mais custaria —, abrir as primeiras páginas e fotografar o que lá estiver escrito; numa folha, registar uma linha por dono conhecido e guardar a nota com o livro. Por fim, olhar o sítio onde ele mora: se estiver contra a janela, sobre um radiador ou na cave, a herança já começou a gastar-se. Mudá-lo de lugar é a primeira escritura de transmissão.

Fontes e leitura complementar

Atualizado em .

Continuar a leitura

A Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto.
Bibliotecas

A biblioteca pública e a biblioteca de casa

A biblioteca pública empresta o que é de todos; a estante de casa guarda o que é seu. Perceber o que cada uma faz melhor — e usar o catálogo do PNL como banco de provas — é a maneira mais barata de construir uma biblioteca pessoal que dure.

Ler o artigo
Caderno de apontamentos de leitura aberto junto a um livro.
Leitura

O caderno de leitura: porque tomar notas

Um caderno de leitura é o registo mais simples que existe — data, título e o que ficou do livro. O Plano Nacional de Leitura publica um modelo impresso para as famílias; a ideia serve qualquer leitor.

Ler o artigo
Mão retira um livro de uma estante cheia numa biblioteca.
Leitura

Como escolher o próximo livro a ler

Não há uma lista obrigatória que escolha por si — mas há um método curto: perceber o que lhe apetece ler, cruzar essa vontade com os filtros do Catálogo do Plano Nacional de Leitura e guardar memória do que já se leu.

Ler o artigo