Há livros que não se compram nem se vendem: entram na família com uma partilha, uma mudança de casa, uma oferta antiga, e ficam. O guia de preservação da Biblioteca do Congresso (EUA), escrito para pequenas coleções domésticas, parte exatamente daí: muita gente guarda livros pelo valor que têm como herança familiar, para além do valor comercial. O que esses exemplares guardam não é só o texto impresso — é uma segunda história, escrita a lápis e a tinta nas guardas. Segue-se o cuidado que essa memória pede, segundo o guia público de preservação de livros da Biblioteca do Congresso, e o registo que deve acompanhar a próxima mudança de mãos.
O que transforma um livro num livro de família?
Raramente é a edição. O que prende um livro à família são as marcas do uso: o nome na guarda escrito por uma avó, a dedicatória na página de rosto, a data e o lugar da compra, um ex-líbris manuscrito, o marcador esquecido entre duas páginas. Forma-se assim um pequeno arquivo doméstico: quem o teve, quando e por que o ofereceu. Daí o primeiro princípio, que é quase um aviso: não «limpar» um exemplar herdado. Apagar inscrições, recortar folhas manchadas ou trocar a capa gasta apaga o documento que torna o livro insubstituível — sem marcas, é apenas mais um exemplar da mesma edição; com a caligrafia de três gerações, é um objeto único.
O exemplar fica na família, o texto atravessa o país
Convém distinguir duas viagens. O exemplar — este volume, esta capa — passa de mão em mão na família e depende dos cuidados que recebe. O texto viaja por outros meios: reedições, cópias, digitalizações. As Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, mostram a cadeia inteira: saíram primeiro em fragmentos na Revista; perante a «popularidade extraordinária», os editores reuniram-nas em livro, impresso em Lisboa em 1846, volume VIII das obras do autor — e o próprio Garrett dirigiu, corrigiu, ampliou e anotou essa segunda publicação. Século e meio depois, a Biblioteca Nacional de Portugal cedeu as imagens de um exemplar e, em 2008, a equipa de revisão distribuída do Project Gutenberg transformou-as num livro eletrónico de acesso livre. O texto não parou de mudar de suporte; os exemplares antigos pedem dos herdeiros uma coisa só: que ninguém os estrague por descuido.
Como receber livros herdados sem lhes fazer mal?
Antes de folhear, três gestos. As mãos: lavadas e bem secas, sem creme — a forma mais segura de tocar em papel, e a Biblioteca do Congresso desaconselha mesmo as luvas, que reduzem o tato e se prendem em cantos rasgados. A saída da estante: empurram-se os vizinhos para dentro e segura-se o livro pelo meio da lombada, nunca puxando pela cabeça. A abertura: um livro antigo não se força a ficar aberto por completo; apoiam-se as capas para diminuir o ângulo e aliviar a lombada.
Se um exemplar cheirar a mofo ou mostrar manchas ativas, o senso comum manda separá-lo: acima de 60% de humidade, o bolor desenvolve-se. Para limpeza e arrumação correntes, o guia irmão Preservar livros em casa tem o passo a passo.
Que lugar da casa conserva melhor um livro antigo?
A fonte insiste: as medidas de preservação mais eficazes e económicas são preventivas — arrumação, ambiente e manuseamento. Em números: ambiente fresco e seco, humidade relativa estável, idealmente até 55%; acima de 60% cresce o risco de deformações e bolor, e abaixo de cerca de 30% o papel contrai-se e torce. Daí as regras: nada de sótãos, caves ou garagens, onde temperatura e humidade oscilam e há mais risco de infiltrações; longe de radiadores e condutas de ar; ao abrigo da luz direta — o guia mostra uma capa roxa desbotada até ao amarelo.
Na estante, os livros ficam na vertical, agrupados por tamanho, com apoios contra a queda; os grandes demais deitam-se na horizontal, e nenhum livro se guarda com a lombada para cima — a gravidade acaba por descolar o miolo da capa. Os frágeis ou em pedaços viajam melhor em caixa; nos materiais de acondicionamento, valem as indicações «sem ácido» e «sem lenhina» — «arquivo» não tem definição legal e nada garante por si só.
Capas de pele: o pó que não se apaga
Aviso específico para heranças com encadernações antigas: muitos livros forrados a pele dos séculos XIX e início do XX sofrem de «podridão vermelha» — decomposição pulverulenta da pele, sobretudo nas dobras da lombada, causada pelo método de fabrico da época. Não é reversível; pode, em certos casos, ser estabilizada. Se a lombada deixa um pó avermelhado nos dedos: não esfregar, não lhe deitar produtos, mantê-lo separado ou em caixa. Para perceber quando um exemplar precisa de mãos experientes, ver Quando pedir ajuda a um conservador-restaurador.
O registo que ainda falta ao livro
Aqui o conselho é editorial — a fonte de conservação não o prescreve, mas a prática doméstica recomenda-o: antes de o exemplar mudar outra vez de mãos, escrever o que se sabe dele. Não no livro — numa folha à parte, num caderno de família ou num ficheiro da casa:
- quem foi o primeiro dono conhecido e como entrou na família;
- as inscrições existentes — nome na guarda, dedicatória, datas — de preferência fotografadas, não transcritas de cor;
- o estado material: reparações antigas, capa substituída, manchas que já lá estavam;
- e a história que se conta sobre ele, mesmo que não seja possível confirmá-la.
É esta nota que permite à geração seguinte distinguir memória de suposição.
O gesto para hoje é pequeno: escolher um só exemplar — aquele cujo desaparecimento mais custaria —, abrir as primeiras páginas e fotografar o que lá estiver escrito; numa folha, registar uma linha por dono conhecido e guardar a nota com o livro. Por fim, olhar o sítio onde ele mora: se estiver contra a janela, sobre um radiador ou na cave, a herança já começou a gastar-se. Mudá-lo de lugar é a primeira escritura de transmissão.



