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Bibliotecas

A biblioteca pública e a biblioteca de casa

A biblioteca pública empresta o que é de todos; a estante de casa guarda o que é seu. Perceber o que cada uma faz melhor — e usar o catálogo do PNL como banco de provas — é a maneira mais barata de construir uma biblioteca pessoal que dure.

Redação do Fólio Aberto
A Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto.
A Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto. Fotografia de Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL / Wikimedia Commons

Sim — uma completa a outra, e nenhuma dispensa a sua parceira. A biblioteca pública e a biblioteca de casa são dois instrumentos do mesmo hábito: uma empresta o que é de todos, a outra guarda o que é seu. Em Portugal, a Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP) integra 490 bibliotecas, e a inscrição numa biblioteca pública é gratuita; em casa, até a estante mais modesta faz um trabalho que nenhuma instituição pode fazer por si. Este artigo propõe uma divisão clara de tarefas entre as duas — e um método simples para decidir que livros merecem passar do empréstimo para a prateleira.

Duas bibliotecas, dois ofícios

Convém começar por despachar a rivalidade imaginária: comprar livros não torna a biblioteca pública inútil, e requisitar não torna a estante de casa supérflua. A biblioteca pública é larga e renovada — lá dentro circula mais do que qualquer casa pode conter. A biblioteca de casa é estreita e estável — poucos volumes, escolhidos um a um, que ficam ao alcance da mão durante anos. Uma serve para experimentar, a outra para fixar. Quem usa as duas não escolhe entre empréstimo e propriedade: distribui os livros pelos dois regimes.

Na prática, a divisão costuma fazer-se sozinha. À biblioteca pública cabe o que se quer conhecer uma vez — o romance de que todos falam, o ensaio da atualidade, o manual para um projeto pontual — e o que é demasiado caro ou volumoso para comprar às cegas. À estante de casa cabe o que se quer ter sempre disponível: os livros a que se volta, os de consulta frequente, os que se sublinham e anotam, os que pertencem à memória da família.

O que a biblioteca pública dá que a de casa não dá?

Escala, antes de mais: as 490 bibliotecas da RNBP formam um fundo coletivo que nenhuma casa replica — e a inscrição é gratuita, sem custos de utilização para o utente. Depois, a continuidade fora de portas: a rede prolonga-se em linha através da BiblioLED, a biblioteca pública de leitura e empréstimo digital administrada pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, que disponibiliza livros digitais e audiolivros gratuitos em qualquer lugar, 24 horas por dia, durante todo o ano — serviço que detalhamos no guia Como ler livros digitais emprestados pela biblioteca pública. E há um terceiro recurso, menos visível: o acervo já selecionado. O Plano Nacional de Leitura (PNL) mantém um catálogo público de livros recomendados, organizado por idades, níveis de leitura, temas e formatos — uma lista de partida fiável quando não se sabe por onde começar.

E o que a biblioteca de casa guarda que a pública não guarda?

O que fica. O livro emprestado devolve-se; o livro da estante espera — uma releitura daqui a dez anos, um capítulo para mostrar a alguém, a dedicatória de quem já cá não está. A biblioteca de casa é também o lugar onde os livros chegam cedo: o PNL insiste, num documento dirigido às famílias, que quanto mais cedo os livros entrarem na vida das crianças melhor, e que os momentos de leitura em família trazem benefícios enormes — vantagens que dependem de haver volumes à mão todos os dias, não apenas de visitas pontuais. Por fim, a estante é um retrato: regista quem a pessoa foi, o que procurou, o que quis guardar. Nenhuma instituição guarda isso por nós.

Um catálogo público para escolher antes de comprar

Se a biblioteca pública serve para experimentar, convém saber o que pedir. O catálogo do Plano Nacional de Leitura permite pesquisar os livros recomendados pelo programa e refinar a pesquisa com filtros pensados para quem escolhe — para si ou para outros:

  • Idade: de 0-2 anos a maiores de 18, em sete faixas;
  • Nível de leitura: pré-leitura, inicial, médio ou avançado;
  • Tema: nove áreas, da banda desenhada à poesia, passando por ciência e tecnologia ou vida prática;
  • Formato: livro, livro-álbum, livro com CD e/ou DVD e livro digital;
  • Língua: além do português, inglês, francês, espanhol, mirandês e crioulo de base portuguesa;
  • Recomendação: por ano e semestre, para ver só as novidades ou só os títulos já consolidados.

Os resultados podem ser reunidos numa lista pessoal e exportados em XLS ou PDF — útil para levar o pedido pronto ao balcão da biblioteca municipal.

Um método simples: emprestar primeiro, comprar o que fica

A nossa sugestão — conselho editorial, não regra — resume-se a três passos:

  • Peça emprestado antes de comprar. Quando um título desperta interesse, requisite-o na biblioteca em vez de o trazer logo para casa. Uma primeira leitura emprestada custa o passeio, não o orçamento.
  • Observe o que fica por dizer. Terminado o livro, pergunte se vai querer relê-lo, sublinhá-lo, emprestá-lo a alguém ou tê-lo à mão dentro de cinco anos. Uma resposta afirmativa faz dele candidato à estante.
  • Compre o que a biblioteca não pode dar. Os livros de consulta permanente, os que se anotam, os que marcaram a família — e os esgotados ou difíceis de encontrar, que o empréstimo não garante a longo prazo.

À medida que os volumes escolhidos forem chegando, a pergunta seguinte é a da ordem: como os dispor para que se encontrem — por assunto, por tamanho, por frequência de uso. É o que tratamos em Organizar uma pequena biblioteca em casa.

Para esta semana fica um gesto concreto: consulte o catálogo do PNL, filtre pela idade e pelo tema que lhe interessam e guarde a lista no telemóvel; depois passe pela biblioteca municipal da sua área — se ainda não é utente, a inscrição é gratuita — e peça três títulos: um que desconfia que vai querer guardar, um que nunca compraria às cegas e um escolhido quase ao acaso. Daqui a um mês, o que cada um lhe pedir — prolongar o empréstimo, devolver sem pena ou comprar exemplar próprio — dirá mais sobre a sua futura estante do que qualquer lista de essenciais.

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