Saltar para o conteúdo
Livros · Bibliotecas · PatrimónioUm lugar para ler com tempo ↗

Cadernos de leitura e cultura impressa

Fólio Aberto

Revista de leitura, bibliotecas e património impresso

Leitura

Livros que se releem

Reler não é repetir: é voltar a um livro conhecido com outros olhos. Do exemplo das Viagens na Minha Terra às listas do Plano Nacional de Leitura, um guia para escolher e aproveitar as segundas leituras.

Redação do Fólio Aberto
Pilha de livros gastos de tanto reler sobre uma mesa de cabeceira.
Pilha de livros gastos de tanto reler sobre uma mesa de cabeceira. Ilustração editorial gerada para a revista.

Há livros que se leem uma vez e ficam arrumados; outros pedem segunda e terceira leituras — e a cada regresso parecem diferentes. Reler não é repetir: é voltar a um texto conhecido trazendo outro leitor, porque entretanto nós mudámos. Este artigo mostra o que se ganha numa segunda leitura, dá o exemplo de um clássico português que até o autor releu e corrigiu, e aponta onde procurar, com critério, os próximos candidatos à releitura.

O que muda num livro quando se relê?

Na primeira leitura corre-se atrás do que vem a seguir: o desfecho, as personagens, a resposta à pergunta que nos prendeu. Na segunda, já sabendo como acaba, sobra atenção para o modo como o livro está construído — a voz, as escolhas, os pormenores que o olhar apressado saltou. É leitura mais lenta por natureza, e costuma ser também mais generosa: perdoa-se o que irritou, nota-se o que passou.

Muda sobretudo o leitor. Um romance lido aos vinte anos e relido aos cinquenta é, em boa medida, outro livro: o texto é o mesmo, mas quem o lê traz mais vida para lhe comparar. É por isso que a releitura serve de medida do tempo — aquilo que parecia central pode tornar-se acessório, e uma personagem secundária pode ganhar o centro que não tinha.

O clássico que o próprio autor releu

Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, é um bom caso português de livro feito para regressos. A obra saiu primeiro em fragmentos numa revista e só depois foi reunida em volume, publicado em Lisboa em 1846, na Typographia da Gazeta dos Tribunais. Conta o prefácio dos editores dessa edição que Garrett dirigiu ele próprio esta segunda publicação: «corrigiu-a, additou-a, alterou-a em muitas partes» e acrescentou-lhe as notas que achou indispensáveis à inteligência do texto. O primeiro releitor atento do livro foi, portanto, quem o escreveu.

Há ainda uma ironia útil para quem fala de releituras. Garrett abre a obra com uma epígrafe de Xavier de Maistre — o autor de uma viagem feita à volta do próprio quarto — e anuncia que vai «nada menos que a Santarém»: a partida acontece a 17 de julho de 1843, uma segunda-feira, com o narrador a caminhar para o Terreiro do Paço. Viajar na própria terra, ou dentro do próprio quarto, é quase o mesmo que reler: percorrer território já pisado e descobrir que ele não estava esgotado. A edição digital do Projeto Gutenberg, produzida a partir de imagens cedidas pela Biblioteca Nacional de Portugal, permite hoje fazer essa viagem gratuitamente.

Que livros merecem uma segunda leitura?

Não existe lista oficial de livros feitos para reler, e a escolha é pessoal — o que segue é conselho editorial, não norma. Costumam dar boas releituras os livros que continuam a trabalhar na memória meses depois de fechados, os que foram lidos depressa demais na primeira vez e os que marcaram uma fase da vida e agora pedem confronto. Em sentido contrário, um livro que desiludiu por ter chegado no momento errado pode merecer nova oportunidade anos depois.

  • livros de que restam imagens, mas já não a trama — releem-se quase como se fossem novos;
  • livros com margens escritas: a primeira leitura ficou registada e espera diálogo;
  • clássicos lidos por obrigação na escola, que fora dela se revelam outra coisa.

E quando a dúvida não é o que reler, mas se vale a pena reler em vez de abrir um desconhecido, ajuda o vizinho deste artigo: como escolher o próximo livro a ler.

Onde procurar candidatos à releitura

Para sugestões com critério público, o catálogo do Plano Nacional de Leitura — citado aqui sem ligação, está em pnl2027.gov.pt — permite pesquisar os livros recomendados pelo programa por faixa etária, dos 0-2 anos aos maiores de 18; por nível de leitura, de pré-leitura a avançado; por tema, de literatura e poesia a banda desenhada e ensaio; e por formato, incluindo livro digital. As recomendações organizam-se por semestre — no catálogo consultam-se, por exemplo, as listas dos dois semestres de 2024 e de 2025 — e qualquer utilizador pode montar «A minha lista de livros» e exportá-la em XLS ou em PDF. Guardar essa lista ao lado da coluna dos «para reler» é uma maneira simples de não perder os títulos que pedem regresso.

Como tirar mais de uma segunda leitura

Duas práticas sem custo aumentam o rendimento de uma releitura. A primeira é escrever durante ela: sublinhar, datar a leitura na guarda, ou registar num caderno de leitura o que mudou desta vez — a nota de hoje será a margem com que a terceira leitura há de dialogar. A segunda é ler alguns trechos em voz alta, sozinho ou em família: o ritmo falado revela frases que o olho aprendeu a saltar.

Para começar esta semana, o gesto é simples: tire da estante um livro lido há pelo menos cinco anos e releia apenas o primeiro capítulo. Anote três coisas que da primeira vez não viu — uma frase, uma personagem, uma ideia. Se o livro passar nesse teste, merece lugar na prateleira dos que se releem; se não passar, também aprendeu qualquer coisa sobre o leitor que entretanto deixou de ser.

Fontes e leitura complementar

Atualizado em .

Continuar a leitura

A Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto.
Bibliotecas

A biblioteca pública e a biblioteca de casa

A biblioteca pública empresta o que é de todos; a estante de casa guarda o que é seu. Perceber o que cada uma faz melhor — e usar o catálogo do PNL como banco de provas — é a maneira mais barata de construir uma biblioteca pessoal que dure.

Ler o artigo
Caderno de apontamentos de leitura aberto junto a um livro.
Leitura

O caderno de leitura: porque tomar notas

Um caderno de leitura é o registo mais simples que existe — data, título e o que ficou do livro. O Plano Nacional de Leitura publica um modelo impresso para as famílias; a ideia serve qualquer leitor.

Ler o artigo
Mão retira um livro de uma estante cheia numa biblioteca.
Leitura

Como escolher o próximo livro a ler

Não há uma lista obrigatória que escolha por si — mas há um método curto: perceber o que lhe apetece ler, cruzar essa vontade com os filtros do Catálogo do Plano Nacional de Leitura e guardar memória do que já se leu.

Ler o artigo